Raimundo Nonato Santos de Sousa


ESTUDANDO HISTÓRIA A PARTIR DO CINEMA: IMPORTÂNCIA E VANTAGENS DO USO DE FILMES NAS AULAS DE HISTÓRIA


A relação entre o ensino de História e o cinema pode ser muito proveitosa, uma vez que os filmes, quando bem inseridos em sala de aula, podem tornar as aulas de História mais atrativas e dinâmicas, além é claro de auxiliar no desenvolvimento da capacidade crítica dos estudantes, colaborando inclusive para a socialização do conteúdo trabalhado pelo professor (a).

É sabido que as narrativas fílmicas possuem características próprias e apesar de muitas vezes tratarem de um mesmo assunto, suas abordagens sobre o passado são distintas umas das outras. Também cabe destacar que o cinema possui um enredo essencialmente ficcional, ou seja, os filmes não reproduzem uma realidade histórica nos seus pormenores, mas sim representam uma maneira específica de abordá-la.

Desse modo, conclui-se que toda produção fílmica traz consigo a intencionalidade de quem a produziu. Por esse motivo, é importante o professor debater o conteúdo e a mensagem do filme com os alunos, a fim de evitar entendimentos equivocados.

Até pouco tempo atrás, os professores olhavam para o cinema como “empecilho ao aprendizado ou concorrente incômodo e difícil de ser vencido no processo de educação escolar” (BITTENCOURT, 2004, p. 372). Entretanto, hoje se reconhece que o cinema é um tipo de linguagem que permite a mediação didática e a prática da aprendizagem.  

Bittencourt no seu livro ‘Ensino de História’ (2004), mostra que o pouco uso dos recursos audiovisuais nas aulas pode ser explicado pelo fato de que muitos professores ainda nutrem certo preconceito em relação a esses recursos, por não conhecerem o real potencial benéfico deles aplicável em sala de aula.

Felizmente, essa realidade vem se modificando. O que prova isso é o fato de que hoje o cinema é visto como ferramenta educativa, conforme destaca Napolitano:

“[...] trabalhar com o cinema em sala de aula é ajudar a escola a reencontrar a cultura ao mesmo tempo cotidiana e elevada, pois o cinema é o campo no qual a estética, o lazer, a ideologia e os valores sociais mais amplos são sintetizados numa mesma obra de arte.” [NAPOLITANO, 2003, p.11]

Apesar de ser do conhecimento público que uma parcela dos professores de História utiliza os recursos fílmicos em suas aulas, sabe-se também, em contrapartida, que existem muitos outros que não possuem conhecimentos acerca da importância da utilização desses recursos, visto que em muitos cursos de licenciatura em História, não são oferecidos conteúdos referentes a este tema, cabendo assim aos professores dispostos a desenvolver um trabalho didático diferenciado buscar esses conhecimentos espontaneamente.

É possível que isso também explique o fato de ser comum a metodologia errônea que alguns professores aplicam ao trabalhar com os recursos fílmicos, sendo esta constituída apenas pela exibição do filme, entendido nessa perspectiva como um mero instrumento ilustrativo ou como uma solução para a falta de planejamento.

A respeito disso, Fonseca (2004), nos diz que:

“[...] com relação à operacionalização do trabalho em sala de aula, acreditamos ser de extrema importância à preparação prévia do professor, ou seja, ele deve ter domínio em relação ao filme e clareza total da inserção do filme no curso, bem como dos objetivos e do trabalho a ser realizado após a projeção.” [FONSECA, 2004, p.181 apud VIGLUS, p.8]

Com base no autor citado acima, pode-se concluir que sempre é necessário o professor se preparar para sua atuação em sala de aula. Afinal será isso que garantirá o atingimento dos objetivos propostos

Independentemente do seu conteúdo, a produção fílmica sempre traz informações sobre o mundo. Por esta razão, é oportuno associá-lo aos conteúdos escolares. Sobre isso, faz-se necessário destacar que a linguagem fílmica é repleta de símbolos e de significados, e em função disso é da responsabilidade do professor estimular a turma a refletir sobre o filme, contextualizando-o com os temas estudados na aula.

Em razão disso, é importante o professor assistir o filme completo, fazer um levantamento sobre a sua produção, verificar o público para o qual o filme se destina, e propor articulações do material fílmico exibido com outras fontes. Evidentemente não é necessário exibir o filme todo, já que pode ser mais vantajoso selecionar trechos que sejam mais interessantes e correlatos aos assuntos abordados em sala de aula.

Também é imprescindível que o filme seja estudado como um documento de determinada época. Para ilustrar, muito se tem utilizado o filme Tempos Modernos, como uma representação do mundo moderno e industrializado. No entanto, esse filme deve ser estudado, antes de qualquer coisa, como um documento daquele contexto histórico. Afinal, só dessa maneira a exibição do filme produzirá discussão, reflexão e posicionamento crítico por parte dos alunos.

A seguir seguem-se algumas indicações de filmes que podem ser inseridos a contento nas aulas de História, a depender dos conteúdos que estejam sendo trabalhados pelo professor (a) dessa disciplina:

Narradores de Javé

Narradores de Javé. CAFFÉ, Eliane. Produção: Vania Catani, André Montenegro. Brasil: Bananeira Filmes, 2004, 100min.
O filme é uma ótima sugestão para trabalhar com os alunos a relação entre memória e história. O enredo dessa produção centra-se na história de um povoado, chamado Javé, que está prestes a ser destruído por causa da construção de uma usina hidrelétrica. Como uma forma de impedir a destruição do povoado, os moradores decidem escrever a história dele. Então, eles vão atrás dos habitantes para redigir a história da cidade, mas cada um tem uma versão singular da origem do povoado.
·         Guerra de Canudos
Guerra de Canudos. REZENDE, Sérgio. Brasil: Columbia Pictures do Brasil, 1997, 2h50min.
O filme é ótimo para se trabalhar um dos acontecimentos mais marcantes que ocorreu no período da Primeira República no Brasil: A Guerra de Canudos, eclodida no sertão baiano no final do século XIX. A narrativa do filme aborda a trajetória de uma família que segue o líder Antônio Conselheiro, que junto com outros seguidores constroem a comunidade sertaneja de Canudos. Essa comunidade possui regulamentação própria, e seus habitantes são opostos às mudanças impostas na sociedade com a introdução da República.

Referências:
Raimundo Nonato Santos de Sousa é Acadêmico do 6 período do curso de Licenciatura em História da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, pesquisador-bolsista PIBIC/FAPEMA e pesquisador-colaborador UNIVERSAL/FAPEMA.

BITTENCOURT, Circe M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004.

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003.

VIGLUS, D. O  filme na sala de aula: um aprendizado prazeroso. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/>. Acesso em: 10 de fev. 2019.


18 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Todos nós sabemos que não adianta diversificar as metodologias aplicadas ao ensino de História se o professor não tiver o entendimento e compreensão dos fundamentos técnicos, teórico-metodológicos que orientam o seu trabalho. Diante disso, pergunto: Como uma formação pedagógica sistemática para o uso de filmes pode contribuir para a emancipação e formação dos alunos na leitura dessa linguagem?

    Elismar Carneiro Pereira

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa tarde. Muito obrigado pelas palavras.
      A resposta à sua pergunta é simples: Os alunos conseguirão interpretar adequadamente o filme e a linguagem fílmica, se o professor, enquanto regente da aula, por assim dizer, o souber fazer.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  3. Anderson Pereira Antunes9 de abril de 2019 às 06:49

    Parabéns pelo trabalho, Raimundo. Acho importante abordarmos a possibilidade de utilização de filmes, além de outros produtos culturais, como ferramentas nas aulas de História. O cinema tem uma capacidade singular de engajamento e isso deve ser aproveitado pelos professores. No entanto, para além das dificuldades técnicas, uma vez que muitas escolas não possuem os equipamentos necessários para a projeção, a principal dificuldade é: como inserir os filmes dentro das aulas. No seu texto, você menciona que é necessário que o professor assista o filme completo e faça um levantamento sobre a produção, mas gostaria que você falasse mais sobre quais estratégias sugere serem as mais adequadas para a elaboração de um plano de aula que inclua a utilização do cinema. Como relacionar os textos fílmicos com o material didático e as diretrizes dos programas curriculares para o ensino de História? Você consegue identificar algum tema ou período que sejam melhor trabalhados através dos filmes ou acredita que o cinema pode ser utilizado a qualquer momento? Desde já agradeço pela atenção e parabéns novamente pelo trabalho.

    Atenciosamente,
    Anderson Pereira Antunes

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa tarde. Muito obrigado. Quando enfatiza o uso de recursos pedagógicos, como o filme, em sala de aula, precisa-se destacar que o intuito não é abolir em definitivo o livro didático, mas sim fazer uso de "complementos". Assim, quando se propõe a utilização desses recursos, devemos ter em mente que eles precisarão ter uma relação de complementariedade e não de substituição com o livro didático. Nessa perspectiva, como complemento, o filme precisa ser empregado como um documento complementar. Acredito que a Antiguidade e a Idade Média, por se tratarem de períodos históricos distantes da realidade dos alunos, e que portanto exigem maior abstração deles, podem ser trabalhadas também com a linguagem fílmica. Digo isso, ressaltando que os filmes não podem ser encarados e nem tampouco apresentados pelo professor como simulacros do real, mas sim como construções oriundas do seu tempo histórico.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Seu ponto de vista é interessante, Raimundo. Gostaria de saber se você chegou a analisar as recomendações de filmes presentes nos livros didáticos. Ex: no livro de História do 7º ano da Coleção "Projeto Araribá", em se falando de Idade Média, as indicações cinematográficas são Shrek (2001), As crônicas de Nárnia (2005) e Star wars (1977) - tais filmes são, incusive, apontados como exemplos de representações contemporâneas do mito do cavaleiro medieval cunhado por meio de romances como Tristão e Isolda e Ivanhoé.

    Grato pela atenção.

    Saudações!

    Willian Spengler

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa tarde. Muito obrigado.
      As indicações que os livros didáticos trazem são muito boas mesmo. E as suas indicações também. Defendo o bom uso do filme em sala de aula, desde que evidentemente, o professor saiba fazê-lo. Aproveito sua colocação para enfatizar um ponto: o professor precisa ter um olhar sensibilizado em todos os momentos em sala de aula. Digo isso, porque é necessário ele observar o tipo de filme que terá impacto positivo sobre o seu alunado.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  6. Boa noite Raimundo. Como estagiário em Licenciatura em História em uma escola pública do Rio de Janeiro, apresentei como primeira sugestão aos alunos de 8° ano com o consentimento de minha orientadora, professora da turma, a reprodução de um filme referente às 13 colônias e ao processo de Independência dos EUA. Propus tal atividade, uma vez que percebi o tradicionalismo de minha orientadora, assim como a falta de criatividade, motivação e entusiasmo da parte dela. Como sou estagiário, não pude ir muito mais adiante além de transmitir o filme. Minha pergunta é: por mais que tenhamos à disposição recursos maravilhosos para poder produzir conhecimento em sala de aula, não existe uma limitação, ou melhor, um comodismo e resistência por parte dos professores em querer levar para a sala de aula metodologias diferenciadas e desta forma continuarem apegados a metodologias que não mais condizem com uma realidade de ensino mais atual?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa tarde, muito obrigado pelas palavras e por ter compartilhado sua experiência.
      Certamente existe comodismo por parte de alguns professores, simplesmente porque ficar na "mesmice" é mais fácil. O difícil é se atualizar, buscar metodologias ativas e empregar recursos pedagógicos diferenciados nas aulas. É claro que essa é uma questão profunda, que não poderá ser esgotada em alguns caracteres. Existe aí também uma influência direta da desvalorização do professor pelo Estado, pela sociedade, pelos alunos e, em alguns casos, pelos próprios professores... Que possamos nos apropriar desses exemplos, como estímulo para fazermos a diferença que desejamos ver na educação brasileira.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  7. Boa Noite

    Seguindo os parâmetros de Jonathas Serrano (aliás Bittencourt cita esse professor e escritor), o professor por intermédio da cinematografia teria condições de abandonar o método tradicional de ensino (memorização), na qual o método através da audiovisual facilita e estimula a aprendizagem. Essa ideia foi cria por Serrano em 1912, analisando atualmente, o método de memorização ainda predomina no ensino. Na sua opinião, quais os principais meios para o abandono do método de memorização e adesão do cinema como ferramenta pedagógica?

    Brena Sirelle Lira de Paula

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite, obrigado pela pergunta.
      É importante que seja frisado que a proposição do filme como recurso facilitar nas aulas de História não deve ser confundida com o uso exclusivo dos filmes em sala de aula. Assim sendo, é necessário perceber que filme se trata de um recurso, dentre tantos outros possíveis, que pode ser empregado ou não pelo professor de História. Nesse sentido, não podemos esquecer que cada contexto escolar possui suas necessidades. Por isso, cabe ao professor avaliar se o emprego de filmes será ou não importante/necessário. Se caso o professor optar pelo filme, ele pode fazer isso por escolher um filme dentro do tema trabalhado. É preferível atentar também para a duração do filme, de modo que se for necessário o professor poderá selecionar as partes mais interessantes e mostra-las para a turma.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  8. Bom dia Raimundo

    Parabéns pelo trabalho, também vejo nos filmes uma oportunidade de ilustrar conteúdos históricos que são abordados em sala de aula assim sendo mais um recurso didático que os docentes podem utilizar na prática de ensino.
    Diante disso quero lhe fazer uma pergunta. Quando o aluno chega com uma opinião formada sobre um assunto da disciplina de história que o mesmo obteve através de um filme sendo que aquela obra cinematográfica não representa a realidade dos fatos. Como devemos agir enquanto educadores para desconstruir tal opinião já imposta pelo estudante e mostrar para ele o que de fato houve de acordo com as fontes históricas.
    Aguardo sua resposta.

    Marcos Vinicius Rodrigues Ferreira

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite. Obrigado pelas palavras.
      Sem dúvida isso deve ser feito através do que eu chamo de "diálogo problematizado". O professor poderá fazer perguntas sobre o assunto para o estudantes, e após ouví-lo, o docente poderá trabalhar com as evidencias históricas que comprovam ou refutam o ponto de vista do aluno.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  9. Olá, Raimundo. Aproveito para parabenizá-lo pelo trabalho. Sou um professor de História imerso em um curso de formação de futuras professoras pedagogas e tenho trabalhado para me reinventar, e assim ser mais útil à universidade à qual pertenço. Costumo utilizar a Bittencourt e o Napolitano em minhas aulas de CMC-I de História. Eles constam das suas referências. Como está pesquisando o tema, teria indicação de algo que considere incontornável no trabalho de metodologia da História aplicada ao cinema, que não tenha utilizado no presente trabalho? Agradeço, att.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite. Obrigado pelas palavras.
      Em resposta à sua pergunta: A importância da lei nº 13.006, que torna obrigatório a exibição de filmes de produção nacional nas escolas de ensino. Além de ajudar no ensino de História do Brasil, o uso dessas produções ainda contribue para a valorização e divulgação dos filmes nacionais.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir
  10. Saudações, Raimundo.
    De antemão, gostaria de parabenizá-lo pelo trabalho. De fato, a utilização do cinema em sala de aula requer planejamento prévio pelo professor, pois visto que o cinema possui essa característica própria de entretenimento, os alunos podem enxergá-lo apenas como mera ilustração, sem portanto tirarem total proveito da experiência.
    Diante disso, fico a pensar sobre a exibição em sala de aula... Concordo que é, por vezes, mais vantajoso exibir trechos específicos da obra, pois uma das características da nossa realidade como professores é o curto período de tempo para as aulas.
    Porém, quando a proposta do trabalho final é fazer uma análise do filme como documento de sua época - como uma contra-análise da sociedade, como aponta Marc Ferro, por exemplo -, é interessante exibir o filme em sua completude?

    Abraços.

    Márcio Vitor Santos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa noite. Obrigado pelas palavras. Isso dependerá muito do filme, dos alunos, dos critérios e objetivos do professor. De todo modo, reafirmo o que foi dito, inclusive por você: os filmes precisam ser tratados como produtos do seu tempo e não como um simulacro do real.

      Raimundo Nonato Santos de Sousa

      Excluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.